Dos confins ao confinamento: pandemia é consequência das nossas relações com a natureza

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Interessante que algo que veio dos confins da Terra, da China, de um lugar ainda remoto na nossa imaginação, tenha acabado por significar para todos confinamento voluntário ou compulsório. Dos confins da Terra ao confinamento entre paredes. Confins e confinamento tem a mesma origem e significado. Os confins da Terra são entendidos como algo longínquo porque confinar é fazer fronteira com alguma coisa. Minha casa confina com a do meu vizinho. Assim, os confins da Terra estão nos limites desse transbordante planeta, ou seja, longe de nós. Ou cada vez mais perto. Já o confinamento é o avesso do avesso do avesso para ser a mesma coisa. Confinamo-nos em nossos limites, circunscritos a nossas casas.

Ao nos limitarmos a elas, para quem tem sorte de ter moradia, vemos aflorar os contrastes dos confins e do confinamento. Percebemos que colocamos nossas esperanças e desejos nos confins, entendidos como longe dos limites do nosso espaço doméstico. Assim, o confinamento só é possível porque todos continuamos mirando os confins, conectados a redes sociais virtuais que mataram nossa subjetividade e nos desensinaram até mesmo a conversar.

Na pandemia nossa de cada dia, o contraste entre os confins e nossa vida cotidiana vai se tornando a cada momento mais radical. Quando se trata das mulheres, para as quais a pandemia traz um conjunto adicional de problemas, tais como a violência de ter que ficar em casa com quem as agride e a angústia de ter que inventar formas de proteger filhos e pais, esse contraste pode se tornar ainda mais extremo. Apesar das mudanças em relação às atividades das mulheres que permearam o último século, elas são, ainda, identificadas com a parcela da humanidade preocupada com o cuidado e com o bem-estar dos outros. E, na maior parte dos casos, são quem trata do preparo de alimentos e da limpeza doméstica. Assim, fica cada vez mais evidente o contraste entre o que se tenta fazer no espaço do confinamento e o que é feito nos confins: mercados abertos onde fezes e sangue de diversos animais misturam-se; fábricas de carne onde galinhas, patos e porcos são criados em um regime de grande sofrimento e nenhuma higiene; e cadeias produtivas como a do chocolate, onde crianças trabalham em condições análogas a escravidão.

A distância entre os confins e o ambiente do confinamento segue a lógica expressa no dito popular “longe dos olhos, longe do coração”. Uma coisa é ver um galpão iluminado por fortes luzes de halogênio, com milhares de galinhas tentando sobreviver em espaços mínimos, apertadas umas contra as outras, sem penas, cheias de feridas e piolhos, pisoteando outras galinhas mortas em decomposição e cacarejando em sofrimento constante. Outra coisa é ir ao supermercado mais próximo e comprar um frango numa bandeja asséptica. Uma coisa é acompanhar crianças em trabalhos extenuantes com jornadas longuíssimas e constantes ameaças de castigos, de quem foi roubada a infância, a esperança e qualquer possibilidade de um futuro com menos sofrimento. Outra coisa é comprar uma deliciosa barra de chocolate na mercearia da esquina.

Convite à reflexão

A pandemia da vez nos convida à reflexão sobre essas dualidades. Talvez o histórico alijamento das mulheres dos processos de tomada de decisão, nas esferas política e econômica, tenha contribuído para que chegássemos onde estamos. A produção de alimentos em larga escala não dialoga com o bem-estar animal, com a diversidade de plantas, nem com o cuidado com as pessoas envolvidas nesses processos. Todas as vidas são descartáveis, estão exclusivamente a serviço do capitalismo.

No âmago de nossos confinamentos, encaramos com nojo as imagens do mercado de Wuhan, na China, possível origem da transmissão do novo coronavírus. Mas precisamos entender as relações de causalidade entre as coisas. Esses mercados são consequência de processos que empurraram parcelas da população para atividades de tráfico de animais e consumo de carne de animais selvagens, enquanto as fábricas de carne cresciam, tentando colocar cada vez mais animais em espaços cada vez menores, com custos cada vez menores, em condições cada vez piores, para inundar o mundo com seus produtos, que não podem ser comprados por significativa parte da população. Em ambos os ambientes, há espaço para o surgimento de doenças, como já sabemos, que podem representar ameaças mundiais. E, vale sempre lembrar, que essas não são situações exclusivas dos confins: a venda, consumo e tráfico de animais selvagens são comuns em diversas regiões do Brasil, as granjas industriais e a criação de porcos com animais confinados em condições muito precárias estão presentes em diversos estados do país.

Certamente, se, ainda neste momento de confinamento, decidíssemos descobrir mais sobre as cadeias produtivas do chocolate, da baunilha, da avelã ou do molho de tomate ficaríamos estarrecidos com a quantidade de sofrimento humano que está amalgamada em cada um desses produtos e quantas possibilidades para novas doenças cada uma delas traz.

Pandemia é fruto de nossas ações

No desenrolar dos dias desse confinamento, é preciso firmar o entendimento de que essa pandemia não é um acaso, nem um azar e sim uma consequência das nossas ações. Se o fim da crise sanitária coincidir com uma volta plena ao mundo que tínhamos antes, estaremos fadados a novas epidemias. Como disse o pensador indígena Ailton Krenak, em entrevista recente: “nossa chance é aprender com o que está acontecendo. Voltar ao normal seria como se converter ao negacionismo e aceitar que a Terra é plana.” Ou seja, voltar ao normal seria como perceber que nosso modo de estar no mundo é altamente predatório e ainda assim persistir nele.

É preciso compreender que, se há um inimigo, ele não é o vírus e sim tudo que possibilitou que ele passasse a infectar humanos, ou seja, as relações predatórias que existem entre o capitalismo e a natureza. Mas, como bem apontou Maristella Svampa, em artigo recente, apesar desse entendimento circular nas redes sociais, em artigos e reflexões, ele não entrou na agenda política. Ao contrário, ela está permeada por metáforas bélicas e pela ideia de que se trata de uma guerra contra um inimigo invisível. Não é verdade, existe, sim, uma batalha imediata a ser vencida, com solidariedade e dados científicos, contra a Covid-19, mas enquanto não focarmos nossas ações na raiz do problema, na forma com que lidamos com a natureza, não mudaremos nada e ficaremos a mercê de novas pandemias, de doenças derivadas da poluição e da contaminação ambiental e da multiplicação dos males advindos das mudanças climáticas.

Mundo mais feminino e interdependente

Se há um mundo por vir, distinto deste, em um tempo que essa pandemia nossa de cada dia ficar para trás, talvez ele deva ser mais feminino. As mulheres estiveram por séculos a fio envolvidas com a alimentação humana. Eram as que amamentavam os bebês, as que coletavam plantas, as que faziam as roças, as que cozinhavam, as que cuidavam. O desafio será inserir cuidado nos processos de uso e ocupação do planeta, desde as formas de produzir alimentos até as transformações do clima, passando pela destruição dos ambientes naturais e das vidas das pessoas.

Talvez nesse mundo por vir seja essencial reforçar a percepção de que essa interconexão da globalização significa interdependência. A minha saúde é a saúde do outro. Assim, quem estabelece quão saudável cada um de nós está é o elo mais fraco dessa cadeia. Aquele que está em condições precárias, pronto para se converter no paciente zero de uma nova epidemia. A minha saúde depende da saúde e das condições de vida dos vendedores de animais do mercado de Wuhan. A minha saúde depende dos vírus que o pangolim abriga, outro animal que pode ter originado a transmissão humana da Covid-19. A minha saúde depende das condições em que porcos e aves são criados nas grandes fazendas de produção de carne. Enfim, o desafio significa construir uma rede de solidariedade que inclui todos os seres vivos do planeta para garantir a saúde de cada um de nós.

Esse desafio, porém, tem a mesma dimensão da pandemia. É gigantesco. Para enfrentá-lo, será necessária uma resposta da mesma escala. Alternativas existem, mas elas estão perdidas em outros confins. Um exemplo são sistemas agrícolas tradicionais, como o do Rio Negro, no noroeste do Amazonas; dos cultivos de arroz, na China; dos oásis no Magreb; dos sistemas pastorais dos Masai, no Quênia e na Tanzânia; das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, em São Paulo; entre muitos outros. Esses sistemas reúnem o cultivo de diversos produtos e ainda zelam pela manutenção dos ambientes naturais e pela qualidade de vida das pessoas. Na agroecologia também é possível encontrar novas formas de produzir, assim como em diversas outras experiências presentes em todos os cantos do planeta. Como lembra Maristella Svampa, existem na América Latina novas gramáticas políticas que propõem outros tipos de relações com os territórios e entre humanos e não humanos.

A possibilidade de encarar um desafio tão colossal – trata-se, afinal, de mudar o mundo – só será possível se trouxermos o que está longe do nosso olhar para perto do nosso coração. Uma forma de fazê-lo é entender que por trás de cada produto, há uma cadeia de eventos envolvidos na sua confecção e que boa parte desses eventos precisa se modificar para que, quando colocarmos na boca um pedaço de chocolate com avelã, não estejamos digerindo também lágrimas e sangue. Para quando comermos proteína animal, não estejamos degustando também o sofrimento, a destruição ambiental e o amargo gosto da probabilidade de novas pandemias.

Ao longo da história, vemos que, muitas vezes, nos momentos de luto, que sucedem grandes crises ou guerras, as possibilidades para novos caminhos são abertas. Vivemos uma situação extraordinária que pode nos conduzir a uma globalização neoliberal mais autoritária, mas também que pode resultar numa globalização mais solidária, com o reconhecimento da interdependência entre todos. Não sabemos ainda como será o futuro, mas está claro que o mundo pós-pandemia está em disputa.

1 Comentário

  1. Ana M L Cartaxo disse:

    Excelente texto, Nurit. Obrigada. Sofrido e desafiador.

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