Nós, os outros animais, a devastação do planeta e a pandemia nossa de cada dia

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Dos confins ao confinamento: pandemia é consequência das nossas relações com a natureza
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Confinar, devorar, deslocar, arrancar partes, deixar sangrar até a morte, matar em fábricas de morte ou matar por mero prazer. Muito das relações entre os outros animais e nós está contido nessas atividades. Confinamos bois, vacas, porcos, galinhas e patos em espaços grandes ou pequenos, esperando a hora de, com mais ou menos sofrimento, matá-los e devorá-los. Invadimos e destruímos florestas, savanas, campos e mares, forçando os animais a mudarem de lugar e muitas vezes, por falta de opção, passarem a compartilhar conosco espaços cheios de humanos. Arrancamos barbatanas de tubarão, chifres de rinocerontes, presas de elefantes, escamas de pangolins e deixamos esses animais morrerem em longo sofrimento. Caçamos animais ferozes em busca de troféus e de encontrar vislumbres de coragem, dentro de nós mesmos…

É dessas relações, com as quais compactuamos no nosso dia-a-dia, temperadas com a cobiça humana, organizada sob forma de um regime político-econômico, que nasceram muitas das pandemias que aterrorizaram nossa espécie e também essa que nos prende em casa hoje, forçando um contato – e quem sabe uma reflexão – com nós mesmos.
Todo vírus que circula na natureza precisa de um outro ser vivo para se reproduzir. É usando o maquinário da célula de outro organismo que o vírus se multiplica e consequentemente se espalha. Os vírus também se transformam ao longo do tempo, tornando possível, com essas mudanças, instalar-se em hospedeiros onde suas versões anteriores não logravam êxito.

Muitas das doenças virais, mesmo aquelas com as quais já estávamos acostumados, como sarampo e varíola, surgiram das nossas relações com os animais. O sarampo, por exemplo, veio da Ásia, fruto do reiterado convívio entre bois, vacas e humanos. Esses criavam gado, abatiam os animais, manipulavam sua carne e seu sangue. Nessas condições, ao longo de centenas de anos, num mundo como o nosso, repleto de vírus, em algum momento uma mutação permitiu que um vírus bovino invadisse e se estabelecesse no organismo humano. O resultado foi o que conhecemos como sarampo, cujas epidemias mataram milhares de pessoas e que, por causa dos movimentos antivacina e da dificuldade de acesso a vacinas por parte da população mais pobre do mundo, segue ceifando vidas.

A varíola aterrorizou milhares de pessoas, até sua erradicação em 1979. Ela tem duas possíveis origens: a primeira é o camelo e a segunda é um roedor do deserto. Mas em ambos os casos foi a reiterada proximidade entre animais e pessoas que possibilitou a mutação e a transmissão da nova versão do vírus. A vacina foi desenvolvida ainda no século XVIII, mas demorou quase 200 anos para se tornar praticamente universal, garantindo a extinção da doença.

Esses processos datam de milhares de anos atrás. De lá para cá, sofisticamos nossas maneiras de matar os animais que usamos na alimentação humana, multiplicamos, confinamos e abatemos mais e mais. Também ampliamos nossas modificações no ambiente natural: desmatamos mais florestas; convertemos mais savanas em campos de agricultura e pecuária; poluímos solos, águas e mares; e estamos mudando o clima do planeta. Espécies que viviam no meio da floresta ou nas profundezas da savana são encontradas em áreas urbanas ou periurbanas, em contato com animais domésticos ou com aqueles criados para o abate, como galinhas, porcos e bois. Além disso, nossa espécie multiplicou-se, ocupa hoje virtualmente toda Terra e faz isso com vastas populações, de milhões de pessoas concentradas em pequenos espaços.


Sistemas econômicos predatórios e a certeza de novas pandemias

A produção de carne e de proteína animal passa hoje, em geral, por grandes fazendas com enormes quantidades de animais confinados em condições bastante precárias. Esse tipo de lugar é ideal para o surgimento de novas doenças como aconteceu com a gripe aviária e a gripe suína. Milhares de organismos juntos, muitas vezes geneticamente semelhantes, prontos para transmitir um eventual vírus de um para o outro e, às vezes, também para os humanos. Há infinitas possibilidades, mas basta que uma vingue e o estrago, com uma nova epidemia, pode ser gigantesco.

Os sistemas econômicos vigentes na Terra são tão predatórios que, além de causarem grande estrago aos ambientes naturais do planeta, impedem que os frutos da agricultura e da pecuária em larga escala cheguem a todos que precisam de comida. Assim, muitas vezes, milhões de pessoas têm que apelar para estratégias diversas para garantir sua subsistência e algumas delas têm relação com o confinamento, tráfico e abate de animais selvagens. Exemplos disso são os traficantes de presas de elefantes, barbatanas de tubarão e chifres de rinoceronte, mas também os criadores de diversas espécies silvestres que alimentam, por um lado, bocas famintas e, por outro, um comércio de itens exclusivos, para restaurantes caros e clientes ricos.

Em lugares como a China, animais e partes de animais são comercializados em mercados cheios de bichos vivos, presos em gaiolas em condições inacreditáveis, em contato com todo tipo de fluidos corporais, uns dos outros. Nesses espaços, em condições de higiene muito precárias, com animais confinados e muita gente, cresce a possibilidade de um vírus, que originalmente infecta algum desses animais, sofra uma mutação e acabe vingando em humanos. Isso deve acontecer com bastante frequência, mas às vezes, o resultado pode ser uma doença bastante transmissível, com uma taxa de letalidade relativamente alta. Com essas características, a pandemia é quase uma certeza.


Mundo pós-pandemia

Tem-se falado muito sobre como será o mundo pós-pandemia. Será que simplesmente esqueceremos tudo rapidamente e nos lançaremos de volta, até mesmo com mais afinco, ao nosso projeto de destruição planetária outra vez? Vale lembrar que destruir o planeta não se refere apenas a quem age diretamente desmatando ou poluindo, mas também às escolhas que fazemos no nosso cotidiano.

Talvez um dos aspectos mais interessantes da pandemia é que ela nos obriga a pensar nas consequências de nossas ações de uma forma que nunca fizemos antes. Quebrar o isolamento físico, por exemplo, não é apenas uma atitude individual, quem o faz pondera sobre quem colocará em risco por conta dessa ação. Quem opta ou tem necessidade de fazê-lo, evita visitar pais, parentes mais velhos e pessoas em situação de risco. Esse tipo de reflexão pode ser uma semente de transformação no mundo pós-pandêmico. Isso pode forçar mudanças em diversos campos, desde os investimentos na saúde pública até nas formas predatórias de uso e ocupação do planeta.

Um exercício de compreensão das relações de causalidade pode ajudar a humanidade a entender as conexões entre o uso predatório da natureza e as doenças. A malária é um exemplo. A doença é muito mais frequente em áreas desmatadas e é possível relacionar número de hectares de florestas destruídos com casos de malária (saiba mais). Outro exemplo é o ebola. Há relatos que conectam os surtos da doença às mudanças radicais do uso da terra, como conversão de áreas naturais em plantios de algodão e de palma, em grande escala e em regime de monocultura.


Covid-19

No caso da nossa pandemia de cada dia, a relação entre nossas formas de agir com os animais – nós mesmos e os outros – e a COVID-19 deve ficar clara para que não cometamos o erro de acreditar, como sempre fazemos no caso da crise climática, que tudo não passa de um desastre natural. Não se trata de um acidente, de uma casualidade ou de um azar: o que vemos hoje é consequência das formas de produção prevalentes no planeta.

O que se sabe hoje é que possivelmente o coronavírus começou a infectar humanos no mercado de Wuhan, na China. O que aconteceu é o chamado transbordamento, ou seja, o vírus que coexistia com os morcegos “pulou” para os humanos. Isso pode ter acontecido pela contínua exposição dos humanos a esses vírus, possibilidade bastante razoável, uma vez que os morcegos estão presentes no mercado. Especula-se, também, que tenha havido um outro animal intermediário, que hospedou esse vírus e onde talvez tenha sofrido transformações que o deixaram mais apto a infectar nossa espécie. Esse animal seria o pangolim, cujas escamas são usadas na Ásia para o tratamento de câncer, artrites e outras inflamações. As oito espécies de pangolins existentes estão ameaçadas de extinção e mais de um milhão desses animais foram caçados na última década. Pangolins, apesar de estarem tão ameaçados, eram comercializados abertamente no mercado de Wuhan.

Nunca é demais lembrar que o tráfico de animais é, na maioria das vezes, resultado de falta de alternativas de subsistência. Àquelas comunidades que são empurradas para essas atividades ilegais, mas toleradas em diversos países, frequentemente não resta outra opção.

O que pode parecer um acaso ou um azar para alguns, é fruto das terríveis condições em que os animais eram mantidos no mercado de Wuhan. Vale lembrar, porém, que estamos falando de Wuhan e seu mercado, pois o foco está na nossa pandemia atual. As fazendas de criação de animais, outros mercados existentes em diversos lugares do mundo e o deslocamento forçado dos animais de seus habitats naturais estão nas origens de diversas das recentes epidemias.


A pandemia abre novas possibilidades para nós?

Em um recente artigo, Bruno Latour diz que a mais espantosa lição do coronavírus é que o mundo, ao contrário do que sempre escutamos, pode, sim, parar. Ora se o mundo pode desacelerar por conta da pandemia, ele também poderia fazê-lo para combater os efeitos nefastos da crise climática. Ou seja, uma das consequências dessa parada global, desse momento de isolamento físico, é que podemos vislumbrar outras possibilidades de mundo.

Acredita-se que o vírus influenza, responsável pela gripe espanhola que matou algo em torno de 30 a 50 milhões de pessoas, entre 1918 e 1919, veio de aves migratórias e aquáticas que compartilhavam parte de seu habitat com porcos e galinhas. A mortandade da gripe espanhola deve-se, em parte, claro, a letalidade do vírus, mas também às precárias condições existentes na época, tanto para tratar a epidemia, quanto na forma como boa parte da população mundial vivia. Dessa experiência traumatizante, nasceram, em muitos países do mundo, como também aqui no Brasil, sistemas públicos de saúde e a convicção da necessidade de universalizar o saneamento básico.

Apesar dos avanços, os sistemas de saúde públicos têm sido abandonados em muitas partes do mundo e o saneamento básico ainda é uma necessidade em muitos lugares. Somado a isso, as formas de produção de alimentos no mundo nos alçaram a uma situação de risco muito maior de recorrentes pandemias.

Mas… se o mundo já fez o que parecia impossível, ele parou. Talvez haja menos impossibilidades do que pensávamos. Talvez seja a hora de construir uma agenda de transformação para a humanidade, que envolva sistemas produtivos menos predatórios, menos perigosos e mais solidários.

Esse texto foi publicado originalmente no site do Instituto Socioambiental.

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