Antes de um longo e tenebroso verão
21 de agosto de 2019
Em vez de maldade, maldade e meia
10 de fevereiro de 2020

‘Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós’,

Assim disse o presidente da república. Isso leva, entre muitas outras, a três reflexões:

A primeira, o óbvio ululante: ser humano? Em pleno século 21, é preciso se afirmar humano? Cada vez mais um ser humano? Então, os índios não eram humanos antes?

Depois de passar pelo genocídio, pelo fim de seu mundo, com a chegada dos brancos ao continente americano; depois de serem considerados seres sem alma; depois de terem sido escravizados, ameaçados e massacrados, os índios precisam chegar a esse novo milênio escutando que devem abandonar seus modos de vida para se tornarem seres humanos?

O presidente não esconde seu racismo: atacou os índios inúmeras vezes, sempre colocando sua humanidade em xeque. Seus preconceitos já são proverbiais: odeia os quilombolas, despreza as mulheres e faz de tudo contra a comunidade LGBTQI. Sim, mas ele é uma pessoa. Presidente ou não, ele é apenas um ser humano. Certo, é desses que dá vergonha da espécie, mas ainda assim, é um, apenas um, ser humano.

A questão que emerge como um tsunami, desde a campanha eleitoral, é como tais declarações não chocam todos os brasileiros? Será que alguém ainda acredita que porque não é índio, não é mulher, não é gay, não é trans, não é quilombola, não é artista, não é ambientalista, não é cientista, não é professor está seguro? Quem ainda acredita nisso, não aprendeu nada com a história. A ascensão dos regimes autoritários mostra que quando grupos específicos estão ameaçados, ninguém está a salvo. Quem respirou aliviado por não ser judeu na Alemanha nazista, se viu ameaçado por ser cigano, gay, comunista ou amigo de algum judeu. E se ainda assim, escapou incólume dos fornos dos campos de extermínio, isso se deveu ao fim precoce do regime, que segundo seus líderes deveria durar mil anos. O número de ameaçados sempre cresce sob os regimes totalitários e a União Soviética, sob a égide de Stálin, não deixa dúvidas.

A segunda reflexão nos leva a perguntar, o que deve ser ser um ser humano igual a nós? Alguém que não liga quando crianças são mortas nas favelas todos os dias? Alguém que não dá a menor bola para a situação dos índios? Alguém que quando interpelado sobre tais barbaridades, diz “sim, sim, mas o PT…” Alguém que acha que bandido bom é bandido morto? Alguém que acha absolutamente normal um deputado, que virou presidente, fazer impunemente apologia a tortura?

Ser humano igual a nós também pode ser gente homogeneizada, sem identidade específica, com oportunidades apenas se tiver dinheiro e condenada à uma penosa sobrevida se não tiver. Quando o presidente questiona a humanidade dos índios que preservam seus modos de vida, quando faz de tudo para desrespeitá-los, quando aplica diligentemente a ideia de dividir para governar, alimentado a cizânia entre os povos indígenas, ele mira no fim dessas sociedades e de seus direitos. Ao falar na integração do índio, almeja o fim dos direitos territoriais originários, aqueles que a Constituição Federal de 1988 garantiu aos índios.

Nessa distopia, alimentada pelo presidente, os índios deixarão de ser índios para se converterem em pobres genéricos, engrossando as fileiras de quem vive sem direitos e sem esperanças, nas bordas das cidades.

A terceira reflexão tem relação com grupos específicos e sua desumanidade. Os judeus, como eu, enfrentaram massacres diversos ao longo de sua história, culminando na morte de 6 milhões de pessoas na Segunda Guerra Mundial. Poucos, porém, parecem ter aprendido algo com esse processo. Sabemos que violência não é escola, mas ainda assim, essa ignorância – ou talvez deliberada complacência – em relação à história é surpreendente. Deveriam saber que não adianta ser amigo do rei, que quando uns estão ameaçados, todos estão. Que não adianta o presidente ser amigo de Israel e contra os índios, para estar a salvo. Se hoje são os índios, se torna legítimo que amanhã sejam os judeus.

As entidades judaicas se revoltaram contra o absurdo protagonizado pelo então secretário de cultura, mimetizando Goebbels, mas até quando vão se calar diante das declarações desatinadas do presidente contra outros grupos?

Enfim, as possíveis reflexões são infinitas. Mas o que fica, de tudo isso, é que se “ser humano como nós” significa ser minimamente semelhante ao presidente, prefiro abandonar definitivamente a humanidade e mergulhar na vida selvagem.

5 Comentários

  1. Ana Paula Leite Prates disse:

    Excelente reflexão! to com você no movimento ex-humana.

  2. silvaesilva Lucia disse:

    Maravilhoso. Artigo tbem é uma forma de cidadania, é um grito de libertação.

  3. Amelia A. Oliveira disse:

    Estarrecedor e inadmissível a naturalização da barbárie por um agente político sob mandato. Repúdio total.

  4. Ana Cartaxo disse:

    Excelente texto, Nurit! Não se pode normalizar essa situação absurda, porém real, de um presidente irresponsável, inominável, conduzir esse país. Repúdio total também.

  5. Denise Bittencourt Amador disse:

    É, me tornando uma ex-humana como você. Não dá para ser da mesma espécie destas coisas, inomináveis…

Deixe uma resposta para Amelia A. Oliveira Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *