Dançando em um mundo pior
28 de abril de 2019

É, talvez o verão dure para sempre. Ao invés, porém, de ser aquela estação aguardada, que nos faz pensar em férias, praias, gente bronzeada e cerveja gelada, o eterno verão pode se tornar o prelúdio do inferno.

Como termômetros e gafanhotos não dão ouvidos àqueles que ainda duvidam da crise climática que se avizinha e como mosquitos e geleiras ignoram solenemente os que insistem em desdenhar os efeitos de nosso impacto sobre o clima planetário, o verão que vem aí, promete…

Já se acumulam evidências que com o aumento da temperatura, o metabolismo dos insetos se acelerará. Ficarão mais ativos e se reproduzirão mais. Por exemplo, hoje estima-se que haja na Terra 17 milhões de moscas para cada pessoa, o que já muita mosca… As projeções, porém, apontam para um aumento de 200% desse número com as mudanças climáticas. Resultado, além da confirmação cabal da previsão de Raul Seixas, a quantidade de vetores de doenças, como malária e dengue, aumentará substancialmente e sua distribuição mundo a fora se ampliará.

Mas há muitos outros insetos, aliás esse já é o planeta do insetos. Estima-se que dois terços de todas as espécies aqui existentes sejam insetos. Com a crise climática, eles dominarão o planeta, serão mais numerosos e estarão em todos os lugares. Imagine os gafanhotos: calcula-se que um enxame pequeno desses insetos come o equivalente a 35 mil pessoas em um dia. E mais, compartilham conosco suas preferências: milho, trigo e arroz. Estima-se que com a transformação do clima, esses insetos podem ameaçar a segurança alimentar de 10% da humanidade.

Tudo isso e muito mais, entre o que já sabemos, o que vislumbramos e o que sequer desconfiamos, dão a impressão de que serão tempos difíceis. O pior é que, para além do contigente de céticos do clima, alguns por interesse, outros por irresponsabilidade, há aqueles que comprazem em aumentar emissões de carbono para atmosfera, com as justificativas mais bizarras. Não basta que as taxas de desmatamento da Amazônia e do Cerrado têm aumentado de forma estratosférica, que o governo questione os dados do INPE e que desmonte todo o arcabouço de monitoramento e fiscalização que o país arduamente construiu. Não basta que o presidente despreze os recursos que Alemanha e Noruega colocavam no Fundo Amazônia, nem que o licenciamento ambiental esteja sendo desconstruído na Câmara. Tudo ainda pode ser pior…

Um exemplo é o que aconteceu no entorno da BR-163, no sudoeste do Pará, no último dia
10 de agosto. Naquele sábado, fazendeiros e grileiros de Novo Progresso fizeram queimadas propositais, levando a um aumento de 300% de focos de incêndio em relação com o dia anterior. Em Altamira, os focos de incêndios aumentaram 743% no sábado, em relação à sexta-feira. E isso, por que? Segundo eles, para mostrar ao presidente da república que estão trabalhando!

Trabalhar pela destruição do país. Esse tem sido o mote do atual governo e na área socioambiental, isso já se faz ver em florestas derrubadas, terras arrasadas, garimpo ilegal, índios ameaçados, órgãos ambientais desautorizados e esvaziados e agora, na Amazônia que arde em chamas como jamais visto. Vale lembrar que no governo atual, o Ibama parou de fiscalizar as queimadas na região do entorno da BR-163, pois perdeu o apoio da Força Nacional. Se nada disso comove corações e mentes, talvez a noite súbita, no meio da tarde, na cidade de São Paulo, no dia 19 de agosto, causada pela fumaça das insistentes queimadas na Amazônia, ajude a vislumbrar o futuro sombrio e quente que nos aguarda.

É importante, sempre, ressaltar a dimensão biológica da crise climática. Os sistemas terrestres são altamente complexos e não respondem linearmente e de forma previsível às mudanças. As interações entre seus componentes, como atmosfera, oceanos, superfície terrestres e organismos vivos, são imprevisíveis e podem levar a transformações radicais rapidamente. Basta o colapso de um dos sistemas que sustentam a vida, como os solos, aquíferos, chuvas, padrão dos ventos, polinizadores, biodiversidade, para que tudo fique em xeque.

Nesse momento, porém, talvez valha mais a pena lançar luz para a dimensão política da crise. Uma matéria recente do jornal inglês The Guardian cita uma análise do cientista político Kevin MacKay (que pode ser lida aqui), mostrando que a crise ecológica é uma crise política. MacKay defende que o poder concentrado nas mãos das oligarquias sempre foi uma causa mais fundamental para o colapso das civilizações do que a complexidade social ou a demanda por energia. Isso se dá porque o controle oligárquico impede as decisões racionais, uma vez que os interesses de curto prazo das elites é radicalmente distinto dos interesses de longo prazo da sociedade. Ou seja, não basta ter as condições tecnológicas e culturais para resolver as crises, as elites econômicas que se beneficiam com essas crises bloqueiam as soluções necessárias.

O resultado dessa análise é que a luta pela democracia e pela justiça é a mesma luta contra o colapso ambiental e a crise climática. Nunca isso esteve tão claro, principalmente aqui no Brasil. Mas, pelo caminhar da carruagem, podemos nos preparar para o longo e tenebroso verão que virá…

1 Comentário

  1. Carmen Sá disse:

    Cara Nurit,

    As vezes o meu desespero é tão grande diante destes descalabros todos que penso que estou dentro de um pesadelo e, nele, digo pra mim mesma: daqui a pouco vou acordar e voltar à vida normal.
    Depois caio na real e choro…

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