Respiração: inspiração para a resistência
17 de abril de 2019

Alguém já disse que os índios são os caras que podem nos ensinar a viver melhor em um mundo pior. Gente que já enfrentou de tudo, nesses últimos 519 anos e possivelmente antes também. Povos que conhecem o fim do mundo, pessoas que já perderam a esperança nessa nossa bárbara espécie. Mas, gente que, ainda assim, não arranca os cabelos, não se desespera, vive e parece aproveitar a vida a despeito de tudo e de todos.

Então é agora, nesse momento, estamos aqui, vivendo em um mundo pior.

Alguém também já disse que se não se pode dançar, então essa não é a revolução que queremos. Ou seja, queremos mudar o mundo, sim, mas queremos fazer isso com alegria e curtindo a vida.

Também é agora, estamos aqui em um momento onde falta ânimo até para dançar, a alegria parece pálida e a indignação domina.

Mas, estamos aqui e agora, também no momento onde aconteceu o Acampamento Terra Livre (ATL), reunião de mais de 3 mil indígenas de todas as regiões do país pertencentes a mais de 200 povos diferentes, que falam mais de uma centena de línguas distintas. O ATL é um acampamento de protesto: os índios vem se manifestar contra o que atrapalha suas vidas, reivindicar mudanças nas políticas públicas e acima de tudo exigir que suas terras sejam integralmente demarcadas.

Essa edição do ATL enfrentou graves ameaças: além do cenário sombrio que se abateu sobre o país, tudo parecia apontar para desfechos violentos. Da convocação da Força Nacional para fiscalizar a área central de Brasília às declarações presidenciais que precederam o acampamento, a ideia era meter medo, desestimular os índios a virem e criar um clima de tensão. Os povos indígenas, porém, não ligaram para nada disso e vieram. Vieram para protestar, para reivindicar, para cobrar, mas vieram também para cantar e para dançar.

Mostraram que não há protesto sem dança; não há cobrança sem música; não há roupa sem cor; não há caminhar sem o som dos chocalhos. Mostraram que a Esplanada pode ser cenário de manifestações alegres e pacíficas. Mostraram que é possível transformar o espelho d’água do Ministério da Justiça, de onde a Funai saiu e para onde os índios querem que volte, em um rio com cachoeiras, ótimo para tomar banho em um dia quente. Mostraram que é tudo junto e misturado mesmo.

Nesse momento difícil, os índios devem inspirar nossa resistência. Se os ecos de Brasília tem chegado nas aldeias, nas florestas, nas terras indígenas, propagando uma narrativa de destruição, os ecos das aldeias, da diversidade dos povos indígenas e da exuberância de suas terras devem chegar a Brasília e nos animar. Se dependêssemos dos índios para garantir a integridade das nossas florestas, elas estariam em boas mãos. O problema é que aqueles que devem delas cuidar, não cantam, nem dançam, apenas fecham os olhos e encorajam o desmatamento, a grilagem e o garimpo.

Enquanto o ATL acontecia, terras indígenas eram invadidas (veja, por exemplo aqui o caso da Terra Uru-eu-wau-wau, em Rondônia, e aqui, o caso das Terras Indígenas da bacia Xingu). Prova cabal que a resistência urge e que talvez seja a única alternativa nesse momento.

Aprendendo com o ATL que tudo é junto e misturado, talvez entendamos que é a resistência que tem que nascer em cada fresta desse sistema sinistro que trará a alegria e a poesia que produzirão as rachaduras de onde brotarão árvores, invenções e ideias. Afinal, autoritarismo só rima com ódio, raiva e racismo; estado de exceção só rima com morte e destruição; ignorância só rima com ganância e de rimas pobres assim, nunca nasceu nenhum mundo que mereça ser chamado de mundo.


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