Respiração: inspiração para a resistência

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Bloqueada, eu continuo. Tem sido difícil organizar a raiva, sistematizar a indignação e estruturar a resistência. São tantas as iniciativas absurdas, é tanta desconstrução que nos perdemos na nossa própria perplexidade. O que fazer? Não há escolha, temos que procurar um caminho… O que eu achei, pelo menos nesse momento, é escrever sobre as velhas e boas questões socioambientais como inspiração para a resistência. Como o ar que tomamos antes de sair para a luta… Uma respiração, para encher o pulmão, mas também para preencher o mundo.

E para começar, publico aqui abaixo um texto, derivado de uma fala no Proteja Talks, sobre como manter e defender as áreas protegidas é parte importante da resistência.

Para além da sucata

Arrancar uma porção do território da sanha predatória da nossa espécie é um enorme desafio. Um dos motivos é que a voracidade é enorme e o apetite da humanidade por novas terras e por mais recursos naturais é infinita. Um outro motivo é que viver com biodiversidade, respirar junto com uma profusão de espécies e poder esticar o olhar até onde a vista alcança é algo subversivo.

Ou seja, é subversivo mostrar que outra forma de viver é possível. Mostrar que é possível conservar paisagens, apostar nos produtos da floresta, entender os manguezais, restaurar o Cerrado, insistir na Caatinga, sentir o vento nos Pampas, ver o reflexo do céu nos rios e nos mares, tudo isso coloca em xeque a nossa sociedade e suas escolhas.

Quando insistimos em manter íntegros os 50 mil hectares de Mata de Araucária do Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, estamos sinalizando que o Morro da Igreja e as paisagens do Parque são mais importantes que metros cúbicos de madeira que poderiam se tirados dali. Estamos tentando mostrar que para a região, esses 50 mil hectares de Mata preservada são uma pérola, oferecendo inúmeras oportunidades, mas desmatados, convertidos em áreas agrícolas ou destinados a outros usos, serão apenas ruínas e lembranças.

Quando a produção da Terra do Meio se organiza e ganha escala, estamos demonstrando que é possível viver na floresta, gerar produtos de valor, atrair empresas, desenvolver novos produtos com elas, enfim criar alternativas. A Terra do Meio é uma área no Pará, que engloba as reservas extrativistas do Riozinho do Anfrísio, a do Rio Iriri e a do Xingu e as Terras Indígenas dos povos Arara, Xipaya e Curuaya. Ali, surgiu um novo elemento da economia da floresta: a rede de cantinas. Hoje já são 22 cantinas que funcionam como entrepostos comerciais. A ideia da cantina revisitou um modelo do século passado, os barracões dos patrões, onde os seringueiros deixavam sua produção, mal paga, e pegavam produtos de sua necessidade, a preços mais que abusivos. Nas cantinas da Terra do Meio, as coisas são diferentes: quem manda é a comunidade, por meio de um cantineiro escolhido por ela, a produção tem preço justo e os produtos a serem adquiridos também. Além disso, existe uma preocupação em substituir produtos industrializados oriundos da cidade por outros, ali da floresta mesmo. Um exemplo é trocar a farinha de trigo pela farinha de babaçu.

Nessa região do estado do Pará, onde a regra é grilar e desmatar, ao sul de Altamira e de uma das sucursais do inferno, a hidrelétrica de Belo Monte, a rede de cantinas mostra que outro mundo é, de fato, possível. Um mundo onde representantes de grandes empresas brasileiras andam dois dias de voadeira para chegar a uma Terra Indígena, sentam horas em bancos de madeira desconfortáveis, dormem em redes improvisadas, tudo isso para olhar nos olhos de ribeirinhos, beiradeiros, extrativistas e indígenas e discutir o preço dos produtos da floresta. Como se não bastasse isso, saem gratificados, levam seus profissionais para um intercâmbio de conhecimentos  nas aldeias e comunidades da Terra do Meio e voltam em toda ocasião que podem. 

Quando a maior área contínua de manguezais do mundo é em grande parte protegida por pescadores, catadores de caranguejos e marisqueiras, comprometidos com a manutenção desse ambiente, ganhamos todos. Os manguezais mantêm as linhas costeiras, moderam eventos extremos, funcionam como berçários de peixes e outros animais marinhos e tem relevância global no balanço de carbono. Ali foram estabelecidas diversas reservas extrativistas como Soure e de Caeté-Taperaçú, São João da Ponta e Mãe Grande do Curuçá, mas a proteção dos manguezais do Salgado Paraense já vem de antes, por parte de uma gente que possui uma compreensão do tempo ecológico dos manguezais e de suas criaturas e vive numa outra lógica. As reservas extrativistas, nascidas das experiências de Chico Mendes e diversos outros seringueiros nas florestas do Acre, sacramentaram essa forma alternativa de viver e deram, às comunidades do Salgado Paraense, um horizonte de possibilidades.

Quando não consentimos que nem um centímetro do Parque Nacional de Brasília seja cedido à pressão imobiliária, estamos sinalizando que a maior mancha de Cerrado do Distrito Federal e as piscinas de água corrente do Parque, que fazem a felicidade da população de Brasília, são mais importantes que mais e mais prédios…

Quando os índios da Terra Indígena Médio Rio Negro 2, no estado do Amazonas, decidem por um programa de turismo comunitário, nas Serras Guerreiras de Tapuruquara, eles apresentam ao mundo uma outra forma de viver, uma outra relação com o tempo, com a floresta, com o rio e com o trabalho. Altamente subversivo…

Quando insistimos em preservar o patrimônio arqueológico da Serra da Capivara, no estado do Piauí, a despeito de todas as tentativas de destruição, estamos mostrando que o olhar não deve apenas procurar o futuro, ele deve se enraizar no passado. As pinturas rupestres no Boqueirão do Sítio da Pedra Furada e dos outros sítios arqueológicos da região revelam parte importante da pré-história brasileira, que talvez já tivesse virado pó, se não tivessem sido protegidas pelo Parque Nacional.

Parques Nacionais preservam o patrimônio natural e cultural brasileiro, protegendo as paisagens que conformam a identidade nacional. O Corcovado está no Parque Nacional da Tijuca, Fernando de Noronha é um parque nacional, Foz de Iguaçu está dentro de um Parque Nacional, o Pico da Neblina e o Pico da Bandeira estão dentro de Parques Nacionais, os cânions do sul do Brasil estão protegidos por parques, parte do Pantanal também é Parque.

Terras indígenas, por sua vez, são a possibilidade de dar espaço de existência para os mais de 300 povos indígenas que vivem no Brasil. Oportunidade de conviver com outros modos de vida, outras formas de conhecimento, uma janela para fora da hegemonia da nossa sociedade do desperdício e do consumo.

Reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável ajudam a manter elementos culturais locais, formas únicas de viver, moldadas pelo convívio das comunidades rurais com a rica diversidade biológica brasileira. Mais uma vez, trata-se de um vislumbre de outras possibilidades de vida. Não é a toa que são tão combatidas e negligenciadas. Essas unidades de conservação trazem em seu âmago uma semente tão revolucionária que ameaçam o sistema vigente, colocam em xeque os escusos interesses locais e ajudam a enxergar um céu de possibilidades entre as árvores da mata…

Outro aspecto revolucionário das áreas protegidas é a possibilidade que elas asseguram de geração de inovação a partir da biodiversidade, do patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais. Essa possibilidade, se levada a sério, com investimentos, criatividade, respeito e inclusão social, poderia transformar todo o Brasil, e especialmente a Amazônia. Uma nova forma de lidar com a floresta e sua sociobiodiversidade. Já há uma explosão de uso de vários componentes do nosso patrimônio genético em produtos cosméticos, grandes empresas como a L’Occitane au Brésil e a Natura, usam ativos da nossa biodiversidade em seus produtos, mas também pequenas associações comunitárias como a ASFLOR, da Terra do Meio, também desenvolvem produtos cosméticos a partir de plantas da floresta. Na indústria farmacêutica, na de produtos de limpeza, na química fina, em todos esses campos há potencial.

Mas não é só isso, sabemos da adaptação popular da frase de Lavoisiver, nada se cria, tudo se copia, que a maior inspiração da tecnologia é a natureza. Soluções derivadas de milhões de anos de evolução podem inspirar novos produtos e alternativas tecnológicas. A biomimética, campo que aposta nessa inspiração, poderia revolucionar a Amazônia. Para haver inspiração, porém, tem que haver natureza. No ritmo de destruição e na aceleração desse ritmo que parece se avizinhar, a nossa melhor aposta são as áreas protegidas.

Para encerrar, lembro das lições de dois indivíduos especialmente lúcidos. Um é José Lutzenberger que dizia que uma sociedade que deve criar áreas para proteger a natureza de si mesma, não pode estar certa. Outro é Manoel de Barros, poeta do Pantanal, que dizia que “tudo que o homem fabrica vira sucata: bicicleta, avião, automóvel. Só o que não vira sucata é ave, árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata. Agora eu penso uma graça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. Peço desculpas por cometer essa verdade.”

7 Comentários

  1. Ana Paula disse:

    Maravilhoso!!!!!

  2. Analuce disse:

    Como sempre uma análise lúcida e completa! Infelizmente, os que precisam ouvir, não entenderão.

  3. Francisco Fonseca disse:

    muito inspirador

  4. Paula Balabram disse:

    Perfeito!!!

  5. Iara Vasco disse:

    Parabéns, Nurit, por conseguir mostrar com clareza e poesia que as áreas protegidas são o testemunho de que a vida em harmonia com a natureza vale mais do que qualquer projeto ou racionalidade econômica que nos exclua dela.
    Enquanto ainda temos ar puro, vamos respirar fundo e perceber que é a natureza que nos inspira e liberta, enquanto o dinheiro nos aprisiona e nos escraviza a um modo de vida que, muito cedo, nos transforma em sucata e nos descarta.
    Por isto as áreas protegidas constituem verdadeiras trincheiras de resistência na luta pela vida.

  6. Ana Maria Nusdeo disse:

    Adorei, Nurit,

    Precisamos de iniciativa dessas e da criação de uma rede.
    Há quem diga que os exércitos virtuais do outro lado ainda não conseguiram mobilizar um contraponto.
    Vamos nos unir e criar estratégias.

  7. Carmen Sá disse:

    Bom demais ler um texto como este pra gente se encorajar cada vez mais a lutar contra a barbárie com a sabedoria das palavras.

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