Sem ternura?
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Respiração: inspiração para a resistência
17 de abril de 2019

– Virou o ano, já faz tempo… você não tinha feito uma promessa de postar um texto no seu blog todas as semanas?
– Pois é…
– Então, estamos em abril… Quantos textos você postou?
– Nenhum…
– Nenhum? Não é um blog sobre meio ambiente? Não é possível que você não achou nada para dizer desde o começo do ano… Por exemplo, logo nos primeiros dias de janeiro, com a estrutura da novo governo e o esvaziamento da agenda ambiental…
– Nem me diga! Essa nova estrutura é uma forma de acabar com o Ministério do Meio Ambiente sem arcar com ônus do fim do Ministério. Uma destruição branca, como se diz… Aliás, curioso saber de onde vem essa expressão… O que não migrou para outros ministérios, muitas vezes inapropriados, como por exemplo o Serviço Florestal Brasileiro que foi parar no Ministério da Agricultura, definhou ou desapareceu. A agenda climática toda sumiu… A conservação da biodiversidade desidratou, literalmente inclusive, pois tudo que tinha água, como a preservação das zonas úmidas e o combate a desertificação desapareceu…
– Pois bem, eis aí um assunto interessante. Além disso, você poderia escrever sobre o desmatamento que só aumenta enquanto o governo desmonta todo seu aparato de fiscalização dos biomas brasileiros, em especial a Amazônia. Toda essa parte de combate ao desmatamento também desapareceu do Ministério do Meio Ambiente, não foi?
– O combate ao desmatamento agora é lenda ou ficção. Além disso, o Ministro do Meio Ambiente vem sinalizando que quer desenvolver um novo sistema de monitoramento do desmatamento. Isso já seria algo de outra natureza, nem lenda, nem ficção, talvez farsa ou até mesmo piada de mau gosto. Quem monitora o desmatamento no Brasil hoje é o INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, usando imagens de satélites gratuitas ou de baixo custo. O trabalho do INPE goza de reconhecimento e prestígio nacional e internacional, mas a ideia agora é fazer um novo sistema com imagens de satélites mais caras, resultando em gastos 55 vezes maiores… Esquisito, ainda mais em tempos bicudos…
– Aliás, essa expressão, “tempos bicudos” é particularmente pertinente atualmente. Parece que sua origem eram as ‘bicudas’, facas pontiagudas, assim tempos bicudos seriam aqueles onde tudo se resolvia a faca… ou numa versão mais tecnológica, a bala…
– Além da faca ou da bala, outra característica desses tempos bicudos é aquela ideia de sacrificar o mensageiro ao invés de lidar com a mensagem. Já tivemos o Presidente tentando desconstruir e lançar dúvidas sobre o índice de desemprego do IBGE ao invés de fomentar iniciativas geradoras de empregos, o mesmo tipo de coisa que o Ministro do Meio Ambiente quer fazer com os dados do INPE.
– Parece que essa história de matar mensageiros quando trazem más notícias era uma prática no império persa… Mas, enfim, por que você não escreveu sobre isso?
– Não sei bem… Eram tantas notícias, tanta desconstrução… Fui vencida pela minha própria perplexidade…
– Sim, entendo, mas como é que você não foi ejetada dessa perplexidade pelo desastre de Brumadinho?
– Sabe que na época do desastre de Mariana, eu escrevi um artigo sobre a pedagogia da lama (https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-ppds/de-mariana-a-abrolhos-a-pedagogia-da-lama-em-dez-licoes), mostrando o que a lama despejada no rio Doce nos contava sobre o Brasil. Desde a negligência com o licenciamento até a inconsequência do poder público diante do desastre e de suas nefastas consequências.
– Ótimo, mas, então, você não escreveu sobre Brumadinho?
– Pensei em escrever um artigo tratando, dessa vez, da psicopatologia da lama… Afinal, mais de 300 mortos, mais uma bacia destruída, nenhuma lição de Mariana aprendida, além da indiferença do novo governo, só pode se tratar de uma situação psicopatológica…
– Ah, concordo plenamente. E na época de Mariana, parece que a Samarco, empresa responsável pelo rompimento da barragem, foi tratada com inusitada benevolência, coisa que parece estar acontecendo agora com a Vale…
– Pois é, imagine que o Ministro andou até dizendo que poderia converter a multa de 250 milhões da Vale em concessões para os serviços de visitação de sete parques nacionais mineiros.
– Isso é ilegal, além de totalmente imoral, talvez ele tenha querido dizer que a multa seria aplicada na gestão e na infra-estrutura desses parques, como deve ser…
– Acho que você está sendo otimista ou benevolente, mas oxalá você esteja certo. No fim, o desastre de Brumadinho atingiu proporções tão gigantescas, que fui paralisada por minha indignação e minha revolta, e não escrevi…
– Puxa… e depois ainda teve a viagem do Presidente aos Estados Unidos…
– Sim, isso me lembra de sua atitude subalterna e suas consequências… Lembra que o Ministro das Relações Exteriores, aquele que fez papel decorativo na viagem, tinha dito que a mudança do clima é um complô marxista? Será que ele acha que os termômetros tem ideologia? Que o gelo do Ártico derrete só para contrariar a direita? Que os comunistas ficam se revezando para jogar baldes de água no oceano para aumentar o nível do mar? Será que ele acha que os mosquitos da dengue que estão se dando bem com o aquecimento global são esquerdistas de carteirinha e provocam epidemias cada vez mais constantes só para irritar os homens de bem? Será que ele ainda não ligou as chuvas intensas no Rio de Janeiro com o previsto aumento dos eventos climáticos extremos?
– Calma, calma… você também não escreveu sobre isso…
– Pensei em escrever um texto sobre como as mudanças climáticas estão em todos os lugares menos no governo brasileiro…
– Parece uma boa ideia, por que você não escreveu?
– Eram tantos absurdos ditos, um atrás do outro, sem interrupção, que fui atropelada e não consegui escrever…
– E ainda teve aquela história que o Presidente disse que quer abrir a Amazônia para ser explorada em parceria com os americanos…
– Parceria? Imagino como será, nós fornecemos, a preço de banana, os recursos naturais e o conhecimento dos povos indígenas e de outras comunidades tradicionais e eles desenvolvem produtos tecnológicos que serão comercializados a preços altos. Sem investimentos na nossa ciência e na pesquisa brasileira, vai ser lindo…
– E agora, nos 100 dias do novo governo, você vai enfim escrever?


3 Comentários

  1. Rosely disse:

    Nurit,

    Adorei este texto e diálogo consigo e conosco sobre a História de um Pequeno Bloqueio. São tantos os atropelos que engolimos os fatos para se preparar para os seguintes. Seguimos, seguimos.
    E como sempre, no recheio desse texto, muita diversidade e informação importante.
    Abraços
    Ro

  2. Carmen Sá disse:

    Pois é, Nurit, diante de tantas sandices temos a impressão de estar em um profundo pesadelo e ficamos mesmo bloqueados!

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