A paciência da raiva
14 de setembro de 2018

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.

Muita gente da minha geração conviveu com essa frase atribuída a Ernesto Che Guevara. Ela estava em camisetas e cartazes, por toda parte. E, apesar de haver uma controvérsia sobre se ele, de fato, teria dito essa frase e se, de fato, teria se comportado com ternura em diversas circunstâncias, a frase sempre me pareceu fazer o maior sentido. Ou seja, endurecer para preservar seus princípios e ao mesmo tempo para não ficar vulnerável demais aos adversários, mas ao mesmo tempo, manter-se terno, gentil, tranquilo e pacífico.

Sempre achei, também, que se a ocasião surgisse, eu estaria preparada para endurecer sem perder a ternura. Enquanto ela surgiu em pequenos episódios, acho que me saí bem. Mas, eis que a ocasião chega, em grandes proporções, avassaladora: o resultado das últimas eleições e os rumos que o país está a tomar. Descobri, então, que eu não estava nada preparada para esse momento…

Não estou entre aquelas pessoas que tem que conviver com grandes divisões familiares, que não sabem como poderão passar o Natal em família sabendo que seus mais queridos parentes apoiaram alguém que faz apologia a tortura e que não acredita na democracia e na igualdade de direitos. Meus amigos e meus poucos parentes acreditam nas mesmas coisas que eu, mas ainda assim, perdi a ternura! E perdi de forma radical…

Do alto da minha ingenuidade e tolice, eu acreditei, até muito recentemente, que muitas das mudanças que o Brasil vinha implementando, tinham chegado para ficar. Estava convencida que  o respeito à fluidez de gênero e a todas as diferenças era uma realidade… que havia resistência, claro, mas essa era minoritária e o desejo da maioria – ou do que eu achava que era a maioria – prevaleceria e não haveria retrocesso. Quão equivocada eu estava… e como não perder a ternura diante de tanto preconceito e tanta violência contra tudo que não é exatamente igual aos novos governantes eleitos?

Eu acreditei também que o ódio de classe estava restrito a alguns que cochichavam que o aeroporto virou rodoviária e que estavam chateados pois não tinham mais uma passadeira por um preço indecente… Subestimei esse ódio, achei que quando as todas pessoas chegassem onde quisessem, inclusive às universidades, isso ficaria para trás. Estava completamente errada… e como não perder a ternura quando as pessoas acham lindo dar roupas velhas para as empregadas domésticas mas não toleram a ideia de que seus filhos sejam colegas de universidade ou que se casem?

Como se isso fosse pouco, acreditei que a conservação da floresta, do Cerrado e das paisagens brasileiras, bem como a valorização dos diversos modos de vida existentes pelo Brasil afora, eram um desejo da maior parte dos brasileiros, apesar daqueles que queriam destruir, envenenar e aniquilar tudo. Mais uma vez, estava redondamente enganada… e como não perder a ternura sabendo que apenas em outubro desse ano, dentro de uma terra indígena, a Terra indígena Cachoeira Seca do Iriri, no estado do Pará, foram derrubadas dois milhões de árvores, resultado da sensação de impunidade gerada pelas declarações do governo eleito?

E a ciência brasileira? Nela, eu acreditei por muito tempo… mas vi muita coisa ser desconstruída recentemente. Tive esperança, vã evidentemente, de que o protagonismo brasileiro nas frentes ambientais, pelo menos, seria uma garantia de que alguma pesquisa de ponta continuaria a ser feita no país. O Brasil encabeçou discussões, liderou debates e deu bons exemplos em áreas como o combate ao desmatamento, a restauração florestal, o enfrentamento às mudanças climáticas e a conservação da biodiversidade. Acreditei que essa liderança seria reconhecida e ampliada ao longo do tempo. Nada mais que uma ilusão… e como não perder a ternura diante de declarações do próximo governo atribuindo a preocupação com as mudanças climáticas a um complô marxista?

Por fim, não há como não perder a ternura, quando a pedagogia do oprimido, uma forma inovadora de relações entre professores, alunos e sociedade, fruto do trabalho do maior educador brasileiro Paulo Freire, reconhecida em todos os lugares do mundo, é desprezada em nome de uma educação doutrinadora, que não aposta no pensamento crítico, nem reconhece a dimensão libertadora da educação.

Fico, então, sem ternura e sem país? Endurecida? Quando já estava quase convencida que esse era o meu destino, um amigo me disse: “endurece não…” e me fez ver que antes de perder a ternura, escolhi endurecer… mas talvez o caminho não seja esse mesmo. Nada de endurecer e nada de perder a ternura! Mais flexibilidade para explicar mais uma vez com novos argumentos; mais paciência para ouvir, se indignar e tentar de novo; mais tolerância para revelar a intolerância… algo assim… Não sei se é possível, nem se sou capaz, mas entendi que o segredo está em não endurecer…

*Ilustração: Ana Cartaxo (7 Histórias de paisagens e uma biografia)

3 Comentários

  1. Que belo texto! Expressa muito do que temos sentido. E converge com uma reflexão daqui: a nossa arma será a infinita ternura, a incessante justiça e uma solidariedade contundente.

  2. Mauricio disse:

    Passo por aqui p lhe dizer que li e gostei muito. Escrever, criar jogos e inventar modo, único modo de não perder a ternura. Bjs.

  3. Carmen Silvia da Silva Sá disse:

    Querida Nurit,

    Como vc também me enganei quanto às expectativas de alcançarmos um país mais humano, igualitário, mais respeitoso à natureza etc etc etc.

    Também não sei se conseguirei não perder a ternura.

    Saudações.

    Carmen Sá

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