As cantinas do meio do mundo
1 de junho de 2018

O Ártico? Totalmente relacionado com a Mata Atlântica. Vale do Ribeira? Quase Nunavut… Inuit? Irmãos de alma dos Quilombolas… Fiquei convencida disso ao ver um documentário na Mostra Projeta: Filmes do Quebec, intitulado “A raiva dos Inuk”. O filme desconstrói a ideia de que a caça da foca é um absurdo ambiental, mostra que esse animal nunca esteve ameaçado de extinção, que as organizações de defesa dos direitos dos animais usam a foca – um bicho fofo – como uma maneira de arrecadar dinheiro dada a empatia que provoca no público e que os Inuit dependem dessa caça para sobreviver, tanto comendo a carne, como usando a pele e também vendendo peles no mercado internacional para conseguir dinheiro para satisfazer suas necessidades cotidianas.

Os Inuit ou Inuk habitam o Ártico. Até pouco tempo atrás era conhecidos como esquimós, mas não gostam desse nome, dado por outros povos, que significa “comedores de carne crua”. Apesar deles, de fato, comerem carne crua, e não terem nenhum problema com isso, parece que o termo esquimó tem uma conotação pejorativa. O filme que eu vi foi dirigido por uma Inuit, Alethea Arnaquq-Baril, e se passa, na maior parte do tempo, em Nunavut, o maior território canadense (uma divisão política do Canadá que parece equivaler aos nossos estados). Vale lembrar que há Inuit também no Alasca, na Groenlândia e na porção mais oriental da Rússia.

No filme, eles estão com raiva, apesar de ser uma raiva calma. Com raiva de como o movimento anti-caça das focas ganhou o mundo, conquistou corações e mentes, mas ninguém perguntou aos Inuit qual seria o impacto desse movimento na vida deles. O resultado foi que por conta de moratórias e limitações da caça da foca, os inuits tiveram sua segurança alimentar ameaçada e seus modos de vida tradicionais estão em xeque. Nem é preciso dizer que a caça tradicional dos Inuit nunca colocou as populações de focas do Ártico sob ameaça. O filme mostra a luta dos Inuit para mostrar que seus modos tradicionais de caça às focas, mesmo quando vendem as peles e os produtos feitos de peles de foca para o mercado internacional, são aceitáveis e sustentáveis.

Interessante ver que as questões que se colocam do outro lado do planeta, em um mundo gelado e sem árvores, são as mesmas do mundo quente, com muitas florestas tropicais. A batalha dos Inuit me fez pensar imediatamente numa luta travada agora, nesse momento, aqui no Brasil: a briga dos Quilombolas do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, para conseguir abrir suas roças, usando seus métodos tradicionais, que incluem derrubar as árvores e queimar a vegetação. 

Apesar do Vale do Ribeira ser um dos recantos mais conservados de Mata Atlântica que sobrou nesse país, principalmente por causa dessas comunidades, muitos ambientalistas surtam quando as licenças para abrir as roças são concedidas. E fazem pressão para evitar que elas sejam concedidas. O resultado é que as licenças, muitas vezes, não chegam e os quilombolas são multados. Outras vezes, chegam atrasadas e os quilombolas perdem o tempo certo de plantar. Haja paciência…

Os argumentos contra as roças dos Quilombolas são da mesma natureza que os usados para forçar a moratória da caça da foca e para limitar a caça por parte dos Inuit. A Mata Atlântica, floresta quase extinta, não pode ser queimada de jeito nenhum, ainda mais para abrir roças… e se isso for aceitável, deve ser para roças de subsistência… Mas, como os Inuit, os Quilombolas também querem vender o excedente de sua produção para poder ter dinheiro para atender suas necessidades.

A situação narrada no filme e a dos Quilombolas do Vale do Ribeira conduzem, pelo menos, a duas reflexões. A primeira é sobre como é mais fácil vender soluções simplistas e como boa parte das pessoas simplesmente adere a essas soluções sem pensar muito: focas não devem ser caçadas, Mata Atlântica não deve ser derrubada, nem queimada. 

Não é difícil imaginar porque isso acontece: num mundo onde tudo é acelerado, só dá tempo de dizer “não a caça das focas!” ou “abaixo o desmatamento da Mata Atlântica!”.  Não dá tempo de dizer, “olha, as focas não estão ameaçadas de extinção, nem nunca estiveram, mas afora os caçadores tradicionais de focas, como por exemplo, os inuit, há muitas outras pessoas caçando focas”. E o seu interlocutor já está fazendo cara de tédio… mesmo assim, você tenta prosseguir: “Essa situação da caça excessiva por outras pessoas pode levar, no futuro, a graves ameaças às populações de focas e afetar até mesmo a subsistência dos Inuit”. Nesse momento, a pessoa já abandonou você, ou o video ou o post e já está fazendo outra coisa… 

Mas haveria muito mais a ser dito, tanto sobre a prática da caça à foca entre os Inuit como sobre as roças quilombolas e as formas menos simplistas e monolíticas de lidar com essas questões. Mas como dizer tudo isso num mundo onde vídeos devem ter menos de um minuto e textos devem ter no máximo 140 caracteres?

Por outro lado, exatamente porque o mundo parece exigir rapidez e velocidade não se pode esperar que as pessoas chequem cada informação que recebem. No máximo, elas checam a proveniência da informação: “Ah, é de uma organização de defesa dos direitos dos animais, então é confiável! Ah, é de uma ONG ambientalista, então deve ser isso mesmo”. Essas organizações parecem bem intencionadas e muitas vezes são! E é justo essa situação que pode levar a uma segunda reflexão.

A visão de natureza e da separação entre natureza e cultura existente na nossa sociedade não é compartilhada pelos povos nativos, indígenas e tradicionais. Para muitos desses povos, o mesmo espírito pode se manifestar em diversos diferentes elementos da natureza. Você hoje é uma pessoa, mas amanhã pode ser uma anta, um tucano, uma árvore ou uma pedra. Então toda a natureza é humanidade. A ideia de humanidade abarca toda a natureza, fazendo com que o que chamamos de destruição da natureza seja, para esses povos, outra coisa, completamente diferente.

Para muitos ambientalistas, formados no pensamento da sociedade ocidental, a natureza é como uma foto, uma paisagem parada, estática, a ser preservada. Ignoram, por desconhecimento ou por preconceito, que virtualmente todos os ecossistemas desse planeta já foram manejados e modificados pelos humanos. Não reconhecem que a natureza, as paisagens, que vemos hoje são fruto da longa interação entre a humanidade – em todas as suas formas – e a natureza.  E que tudo se transforma o tempo todo…

Não percebem que na natureza existe, amalgamada a cada um de seus elementos, uma história de relacionamento. Espécies foram manejadas, selecionadas, domesticadas, como a mandioca e o trigo; solos foram melhorados e formados, como a terra preta de índio na Amazônia; oásis foram formados e cultivados em todo o norte da África; boa parte das árvores exuberantes que compõem as florestas tropicais, como as castanheiras na Amazônia e as araucárias na Mata Atlântica, foram plantadas  uma parte por animais como cutias, outra por outros animais, como os humanos. 

E isso vai mais longe: a caça tradicional Inuit regula a população de focas, a roça tradicional quilombola ajuda a conservar a diversidade de plantas da Mata Atlântica. As roças funcionam em sistema de rodízio, depois de um tempo as áreas são abandonadas e a floresta se recompõe. Como as áreas não são grandes, isso acontece rapidamente, mas espécies que, em geral, não conseguem germinar por causa da sombra da mata, conseguem crescer e se estabelecer. A dinâmica se assemelha a abertura de amplas clareiras na floresta, quando grandes árvores caem.

Para além desses exemplos, há muitos outros. Por exemplo, o regime de fogo usado pelos Masai na savana africana no Quênia e na Tanzânia, garante a presença da megafauna. E sobre isso, também, há uma história interessante ilustrando as diferenças de pensamento entre os povos não ocidentais e os ambientalistas. Há cerca de 70 anos atrás, como parte do projeto colonial dos europeus na África, foram criados parques e reservas de conservação da natureza. Assim nasceram as primeiras áreas protegidas ali mas como o objetivo era atender as expectativas de conservação de paisagens da nossa sociedade, vistas como uma fotografia estática, os Masai, que ali habitavam desde sempre, foram expulsos. 

Com essa tragédia para esse povo, sobreveio um problema para os que cuidavam dos parques: os carnívoros, como os leões, grande atração das áreas protegidas, sumiram. Como assim, sumiram? É isso mesmo, desapareceram! Sumiram porque sua presença ali dependia do regime de fogo que os Masai usavam. Os Masai, de tempos em tempos, colocavam fogo na savana e quando as primeiras folhinhas rebrotavam, os herbívoros apareciam para comê-las. Atrás deles, vinham os leões e os outros carnívoros. Para os Masai, tudo funcionava de maneira coordenada, queriam atrair os leões para os rituais de passagem dos meninos entre a infância e a vida adulta, que incluíam a caça ao leão. Sabiam quando botar fogo, tinham tudo calculado. 

O pessoal dos parques pensou: “ora sem fogo vai haver mais leões, esses Masai estão destruindo a natureza…” Sem fogo, porém,  o ambiente se adensou de capim, plantas jovens com folhas tenras desapareceram e com elas os herbívoros e com eles, os carnívoros… Resultado, em alguns parques, os gestores foram obrigados a simular o regime de fogo dos Masai e em outros, os Masai foram convidados a voltar…

Apesar desses povos, nativos, indígenas, tradicionais, representarem apenas cerca de 5% da população mundial, eles vivem em cerca de um quarto da superfície terrestre – afinal quem gosta de viver espremidos em cidades caóticas somos nós. Calcula-se que eles sejam responsáveis pela manutenção de 80% das paisagens naturais do planeta. 

Mas se os números são esses por que ainda há quem acredite que esses povos destróem a natureza? Por que tanto esforço para conseguir que a caça de focas dos Inuit seja banida ou muito limitada? Que os Masai sejam expulsos de suas terras? Ou que os Quilombolas não possam fazer suas roças? 

Se fizermos perguntas mais completas, poderemos vislumbrar as respostas: por que os caiçaras da Jureia não podem fazer suas roças na beira da praia na Mata Atlântica, mas é possível construir um resort de luxo no mesmo lugar? Por que os Inuit não podem caçar a quantidade de focas que seja suficiente para viver bem mas as mineradoras e as empresas petrolíferas podem explorar o Ártico, ameaçando a fauna local? Por que ribeirinhos e seringueiros são expulsos de parques nacionais na Amazônia, enquanto as casas de veraneio permanecem ativas, lindas e cinematográficas, no primeiro parque nacional brasileiro, criado na década de 1930, no século passado?

Ou seja, além do embate de visões de mundo, entre ambientalistas e povos tradicionais, há racismo e discriminação também. Frequentemente, há o discurso preconceituoso que taxa esses povos como atrasados e até mesmo anacrônicos. Povos que são vistos como primitivos, enquanto hotéis de luxo e mineração são encarados como jóias do nosso desenvolvimento. Isso mostra, para além da diferença de visões de mundo, a intolerância da nossa sociedade com outras formas de viver e sua prepotência que acredita que não há nada a aprender com esses povos.

Povos tradicionais são, muitas vezes, vítimas de projetos de conservação que não conseguem impedir o uso predatório de grandes empresas e de poderosos setores econômicos. No fim das contas, são esses povos que sempre se dão mal, quando a ideia é detonar sem nenhuma regra, como acontece com a grilagem e o garimpo na Amazônia; quando a ideia é construir grandes empreendimentos que não respeitam a realidade local, como hotéis e hidrelétricas ou quando a ideia é conservar a natureza usando como fundamentos as visões de mundo da sociedade ocidental. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco…

Enfim, o desafio está dado: para esses povos se trata de preservar seus modos de vida nesse nosso mundo cada vez mais homogêneo, cada vez mais pasteurizado. Para nós, o desafio é entender que ali reside, talvez, a última possibilidade de pensar diferente, de fazer de forma distinta e de construir um mundo com mais gente feliz.

4 Comentários

  1. Ana Paula disse:

    Ótima reflexão!

  2. Anna Helena Miussatché disse:

    Texto reflexivo sobre um documentário que a primeira vista é uma simples informação sobre a existência de um povo desconhecido. ENGANO!!
    As considerações feitas pela bióloga Nurit Bensusan nos permite entender profundamente, não apenas um problema , mas nos impactam com seus alertas sobre ações protecionistas que nos trazem alertas duvidosos .
    Que venham mais filmes como este com debates valorosos de conscientização !!!

  3. Raul disse:

    Nossa! Matou a pau! (Humm, que me desculpem os politicamente corretos… rsrs) O problema é que o texto tem mais de 140 caracteres, logo…

  4. Carmen Sá disse:

    Parabéns Nurit!

    Sempre ótimos seus textos.
    Aprendo muito com eles.

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