As cantinas do meio do mundo – Planeta Bárbaro
A expansão da maternidade como estratégia para mudar o mundo
7 de maio de 2018

Meu encanto pelas cantinas pode ser dividido em três grandes fases. A primeira remonta a minha infância profunda, quando eu tinha uns 3 ou 4 anos e frequentava o jardim da infância da minha quadra. Além da esteirinha, que levávamos para dormir a sesta, minha outra recordação gira em torno das moças da cantina da escola e das comidas que dali emergiam. Eram almoços no horário dos lanches: macarronadas, sopas e mingaus que faziam a alegria de todos nós, servidos por umas mulheres cuja alegria ficou aderida a minha memória para sempre.

A segunda data da minha adolescência e do começo da minha vida adulta. Foi quando me dei conta que a palavra cantina também servia para designar restaurantes de comida italiana que começavam a se tornar comuns em Brasília. Como muitas dessas cantinas eram bem mais acessíveis do que os outros restaurantes da cidade, elas se tornaram pontos de encontro e nos salvaram da fome pós-festa de muitas madrugadas.

A terceira fase do meu encantamento pelas cantinas é a que eu vivo nesse momento. Essas cantinas que tanto me encantam agora não são nem das escolas, nem restaurantes italianos, são uma espécie de entreposto que ajuda a levar os produtos da floresta para seus compradores e a trazer produtos essenciais das cidades para os povos da floresta. Na região da Terra do Meio, um lugar que pode parecer que está no meio do nada, mas que está mesmo no meio do mundo e no meio de uma revolução das formas de comerciar e de produzir na Amazônia, as cantinas já somam 22. 

No estado do Pará, onde a regra é grilar e desmatar, ao sul de Altamira e de uma das sucursais do inferno, a hidrelétrica de Belo Monte, a rede de cantinas mostra que outro mundo é, de fato, possível. Um mundo onde representantes de grandes empresas brasileiras andam dois dias de voadeira para chegar a uma Terra Indígena, sentam horas em bancos de madeira desconfortáveis, dormem em redes improvisadas, tudo isso para olhar nos olhos de ribeirinhos, beiradeiros, extrativistas e indígenas e discutir o preço dos produtos da floresta. Como se não bastasse isso, saem gratificados, levam seus profissionais para um intercâmbio de conhecimentos  nas aldeias e comunidades da Terra do Meio e voltam em toda ocasião que podem. 

A primeira cantina surgiu em 2011, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Em quatro anos, já eram 16, espalhadas nas Reservas Extrativistas do Rio Iriri, do Riozinho do Anfrísio e do Xingu e nas Terras Indígenas dos povos Arara, Xipaya e Curuaya.  A ideia da cantina revisitou um modelo do século passado, os barracões dos patrões, onde os seringueiros deixavam sua produção, mal paga, e pegavam produtos de sua necessidade, a preços mais que abusivos. Nas cantinas da Terra do Meio, as coisas são diferentes: quem manda é a comunidade, por meio de um cantineiro escolhido por ela, a produção tem preço justo e os produtos a serem adquiridos também. Além disso, existe uma preocupação em substituir produtos industrializados oriundos da cidade por outros, ali da floresta mesmo. Um exemplo é trocar a farinha de trigo pela farinha de babaçu.

A maior parte dos brasileiros nunca parou para pensar de onde vem a castanha-do-pará. Muita gente acha que existe por aí uma plantação de castanheiras. Não sabe que se trata de um produto do extrativismo. Muitos tampouco sabem que a borracha natural vem de uma árvore. Existe toda uma economia da floresta invisível para a maioria dos brasileiros e propositadamente invisibilizada – e inviabilizada – por aqueles poucos que lucram com a destruição da Amazônia. 

Empresas, como a Mercur que compra borracha e a Wickbold que compra castanha, mostram que é possível pagar preços justos e fazer negócios com ética, dignidade e respeito. Esses arranjos produtivos também colocam a Terra do Meio em um lugar de destaque, em especial nesse momento onde muitas empresas brasileiras se tornaram sinônimo de ninho de corrupção e outras não se constrangem em manter margens de lucro gigantescas, mesmo às custas do resto da sociedade.

Há muitas coisas necessárias para que uma cantina funcione bem, como algum capital de giro, uma boa gestão por parte do cantineiro, o envolvimento das comunidades e das empresas, entre muitas outras (para saber mais, clique aqui). Mas, o que, mais que tudo, inaugurou a terceira fase do meu encantamento pelas cantinas, é o protagonismo dos extrativistas, ribeirinhos e indígenas, que sabem exatamente o que estão fazendo ali, não deixam dúvida que é possível fazer diferente e mostram que a Terra do Meio é o centro do mundo.

3 Comentários

  1. Zara disse:

    Adorei viajar para as cantinas por meio de seu texto! Agradeço pelo aprendizado!

  2. Rogério de Oliveira Pereira disse:

    Isso é exemplo de governança e resistência deste povo que vive na floresta, que bom que empresas comecem a conhecer de onde saem os produtos que compram parabéns as empresa.

  3. IARA VASCO FERREIRA disse:

    Adorei. Este é o protagonismo da resistência de um modo de vida que remonta à infância mais profunda das cantinas do Brasil… quando essas comunidades faziam suas trocas livres do mercado global.

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