A expansão da maternidade como estratégia para mudar o mundo – Planeta Bárbaro

A expansão da maternidade como estratégia para mudar o mundo

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Digam o que quiserem, mas não há dúvidas que a maternidade é uma experiência que coloca a mulher em xeque e faz com que ela pense e repense sobre tudo e qualquer coisa. Muitas perguntas, evidentemente, emergem quando uma mulher, no nosso bárbaro mundo, tem um filho. Algumas são rapidamente sufocadas e submergem para baixo do tapete mais próximo. Principalmente aquelas que colocam nossa posição de mulheres modernas, independentes e auto suficientes em questão. A velha história da maternidade como fonte de opressão para as mulheres…

Para onde a maternidades nos conduz? Não é uma pergunta apenas para mulheres e mães. Para um lugar de afeto ou de opressão? Para um lugar de troca ou de hedonismo? Para um mergulho em nossa experiência de humanos e de animais  ou para o materialismo nosso de cada dia?

Enfim, seria fácil fazer uma lista de questões que emergem, mas queria abordar apenas uma, que me intriga: a maternidade é uma experiência solitária?

É possível, e bastante plausível, que nossa espécie tenha evoluído a partir de uma forma de se organizar  onde um coletivo de pessoas cuidava das crianças pequenas. Por muito tempo, vivemos de forma conjunta, pais, mães, tios, tias, primos, irmãos, avós, outros parentes e outros adultos sem parentesco, todos cuidando das crianças. Nesse cenário, a maternidade certamente não era uma experiência solitária. Mas, o mundo mudou…

E, claro, em muitos lugares, para as mulheres mudou para muito melhor. Nem é preciso falar do abismo que divide a situação de nossas avós, e mesmo das nossas mães, e a nossa. É evidente também que há milhões de milhas a percorrer até aquele momento, provavelmente utópico, onde haja relações equitativas entre homens, mulheres e quem mais quiser e vier. 

Não acredito, porém, que a maternidade é um dos fatores que atrasa esse momento… pelo contrário, ela poderia servir de acelerador… Não há dúvidas que durante muito tempo a atividade de cuidar dos filhos foi usada como estratégia para manter as mulheres fora dos espaços da vida pública, como ambientes de trabalho, universidades e instituições políticas, todas exclusivas dos homens. Hoje, isso não faz mais sentido e assim sendo,  deveríamos revisitar nossas perspectivas sobre a maternidade.

Assim, volto a minha questão da solidão da maternidade. Hoje, com exceções honrosas, a maternidade continua tendo características muito diferentes da paternidade, mesmo depois que a criança é desmamada. Ou seja,  continua sendo uma experiência distinta para pais e mães. Além disso, a organização da nossa vida, em geral, em torno de uma família nuclear, sem avós, tias, irmãos e irmãs por perto, faz com que a maternidade fique centrada e concentrada na mãe. A ajuda que acontece vem de babás ou de creches. Resultado, mesmo que muita gente se veja às voltas com as tarefas práticas de cuidado com a criança, a maternidade – onde quero incluir a também a reflexão sobre o que é criar um novo ser humano – permanece exclusivamente da mãe.

Haveria esperanças de tornar a experiência menos solitária, se fosse possível compartilhar a maternidade e suas questões com outras mães e outras pessoas que se dispusessem. Mas, num mundo onde ser mãe é apenas uma das muitas coisas que uma mulher tem que ser, falar sobre a maternidade, em geral, se resume em trocar informações sobre o lado operacional e prático do cuidado com os filhos. Quem desrespeita esse acordo tácito é recriminada. A devoção aos filhos, a exaltação da maternidade e o excesso de tempo gasto nisso são condenados e a pobre mulher taxada de atrasada, retrógrada ou anacrônica. 

Não estou, naturalmente, defendendo a ideia de que as mulheres deveriam abandonar suas carreiras e outros interesses para cuidar dos filhos. Insisto, porém, que a questão de como criar novos seres humanos é muito relevante e não deveria ser empurrada para debaixo do tapete. O fato de muitas mulheres se julgarem despreparadas para a maternidade dá uma dimensão da pouca importância que temos dado ao assunto e nosso bárbaro mundo traz um vislumbre das consequências. Ou seja, não é apenas que as mulheres devem assumir mais a maternidade, como fonte de transformação do mundo, mas também que a maternidade deve ser assumida por mais gente. 

Expandir a maternidade – entendida como o cuidado e a reflexão sobre os novos seres humanos criados – talvez seja a melhor possibilidade que temos de mudar o mundo.

4 Comentários

  1. Marilena disse:

    Lindo! muito do que sinto e venho procurando ser/viver. “fazer parentes”

  2. Rosely disse:

    Adorei! a Maternidade é uma experiência, uma troca, uma novidade, uma criatividade e acima de tudo, a melhor forma de criar humanos com amor, quase sempre.

  3. Rosely disse:

    Adorei!
    A Maternidade é uma experiência, uma troca, uma novidade, uma criatividade e acima de tudo, a melhor forma de criar humanos com amor, quase sempre.

  4. IARA VASCO FERREIRA disse:

    Concordo plenamente, Nurit. Por experiência própria, vivi uma maternagem compartilhada com amigas/os irmãs/ãos e com meus pais, em virtude da separação do pai do meu filho, e esta foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida… É claro, contudo, que no dia a dia é “nóis”, né, mermã! Mas, não tenho dúvida que essa maternagem compartilhada na primeira infância do meu filho (hoje com 18 anos) fez toda diferença na sua formação e visão de mundo. O caminho da hominização que nos leva a experiências solitárias, leva também ao empobrecimento da alma e da sociedade que estamos constituindo…
    Muito grata por vc provocar essa paradinha da gente, para uma reflexão tão importante.

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