Ligações perigosas e divisões traiçoeiras
23 de setembro de 2017

Numa campanha muito instigante, focada no preconceito contra os índios no Brasil, promovida pelo Instituto Socioambiental (se você não viu ainda, clique aqui e veja antes de continuar a ler esse texto, pois o spoiler é radical), um índio Baniwa diz no final: “… e se tudo mudou e você continua a ser ‘homem branco’, porque a gente não pode mudar e continuar sendo índio?”  

Essa frase trata evidentemente, pelo menos, de dois processos de mudanças: o dos “brancos” e o dos índios. A campanha quer mostrar que os índios mudam, às vezes radicalmente,  e nem por isso perdem sua identidade e seus direitos. Mas a outra mudança, a do “brancos”, também tem sido radical, talvez tanto que nem nós mesmos consigamos entender. Sim, há a tecnologia e o desenvolvimento científico que trouxeram gigantescas modificações no mundo dos “brancos”, mas há outras mudanças talvez mais sutis sobre as quais precisamos pensar para podermos continuar a interagir com outros mundos, outras formas de pensar e de viver, como a dos diversos povos indígenas.

A forma pela qual nós, os “brancos” vemos o mundo, mudou radicalmente. Não apenas porque nossa atuação atingiu uma escala global, capaz até mesmo de modificar processos planetários com consequências para todos os humanos, mas também estamos deixando para trás, rapidamente, um modelo de sociedade hierárquica e disciplinar, com regras e papéis claros, para adentrar em um novo mundo, onde os senhores são o consumo e o desempenho individual. Se por um lado é ótimo deixar para trás um mundo cheio de machismo, repressão, homofobia e frustração, o novo mundo se delineia ironicamente mais livre por um lado, mas por outro mais coercitivo. A coação que estava no outro, na autoridade, foi introjetada em nós mesmos, resultando numa amálgama paradoxal de escravo e feitor, trabalhador e patrão, subjugado e dominador, tudo isso, junto e misturado, em cada um de nós. É o que Byung-Chul Han chama de sociedade do desempenho. 

Essa nova forma de estar no mundo, combinada com as tecnologias de comunicação, as redes sociais e a frenética velocidade com que as coisas se sucedem, fazem com que nossa relação com o tempo seja também um pouco frenética. A vida parece curta, os dias se sucedem iguais, as semanas passam, os anos se acumulam e tudo isso acaba por compor um passado nebuloso onde as coisas se confundem e jamais temos o sentimento de ter realizado algo, pois assim que completamos uma tarefa, corremos para cumprir outra meta, como se a vida fosse uma corrida de obstáculos, onde a linha de chegada se confunde com a morte.

É nesse cenário que fui para as Serras Guerreiras, no Rio Negro, Tapuruquara, um projeto de turismo de base comunitária indígena, na Terra Indígena Medio Rio Negro II, no estado do Amazonas, entre Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira. Entre esses santos, a herança violenta das missões e da colonização portuguesa, confirmei a impressão que o tempo tem dobras, como se fosse uma saia plissada, a gente vive naquela camada de cima, sem considerar a possibilidade de desvelar o que há dentro das dobras e sem esticar o tecido.

Tentar, por mais difícil que seja – e é uma tarefa muito difícil quando levada a sério – entender as modos alternativos de vida passa obrigatoriamente por observar uma relação diferente com o tempo. Mas será isso, de fato, possível? A velocidade da nossa vida é tão viciante que um descanso dela só é bem vindo quando entendido como momentâneo, breve. 

Desvelar o infinito de uma prega dessa saia, entrar numa dobra de tempo e descobrir um novo mundo é talvez o maior desafio de um turismo desse tipo. Sim, porque, claro, o turismo, em geral, é uma atividade com todas as características do nosso tempo: viajar é quase uma obrigação, se divertir mais do que uma obrigação e quanto mais coisas “interessantes” se faz nessas viagens, melhor. Um turismo em Terras Indígenas, onde há atividades a serem realizadas, mas há longos banhos de rio, calmas conversas com as comunidades e horas de navegação suscita outra forma de se relacionar com uma viagem e com um lugar.

Talvez seja uma janela, um vislumbre, para um outro jeito de viver e talvez, de dentro dessa dobra do tempo, possamos ver, com outros olhos, o que é o nosso tempo. E se nada disso for possível, pelo menos um momento para respirar antes de seguir, em desabalada carreira, para lugar nenhum.

(A foto aí acima é do Cezar Kozak)

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