A clonagem do neandertal como uma possível lição de eurocentrismo

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Extinção é para sempre? Até pouco tempo era muito fácil responder a essa pergunta. Pensávamos no tiranossauro, no pterodáctilo, no estegossauro, e não tínhamos dúvida, estão extintos e só revivem num cenário de ficção, como no filme Parque dos Dinossauros (Jurassic Park). Pensávamos no mamute, no pássaro dodô e no quaga e não tínhamos dúvida: nunca veríamos um mamute passeando pelas planícies do ártico, nem pássaros dodôs perdidos nas ilhas do Oceano Índico, nem quagas correndo pelas savanas africanas. Extintos, para sempre.

Ups, mamutes? Extintos para sempre? Será que não veremos mesmo mamutes por aí? Com o degelo do Ártico e de parte do norte da Rússia, por causa do aquecimento global, mamutes em um bom estado de conservação emergiram e foi possível completar o genoma desse animal. Ou seja, temos seu DNA completo e já há muitos projetos de clonagem do mamute. Veja, por exemplo, o projeto Woolly mammoth revival (http://reviverestore.org/projects/woolly-mammoth/) cujo objetivo é trazer o mamute de volta a vida e povoar com ele um Parque Pleistoceno (Pleistocene Park http://www.pleistocenepark.ru/en/).

Fazer reviver animais extintos parece uma ideia muito bacana, mas será que é mesmo? Há questões biológicas, como, por exemplo, as interações desse bicho com os outros organismos que existem aqui. Trata-se não apenas de competição entre eles, mas também de adaptação aos ambientes existentes e de doenças que podem surgir ou reemergir. Há também questões de outra natureza, por exemplo, quem será o dono do mamute clonado, onde ele viverá e como viverá. Se esses animais forem “desextintos”, serão colocados em zoológicos? Em grande “parques” como o Parque Pleistoceno? Serão objetos de pesquisa? De turismo? De caça? Quem tomará essas decisões?

Há, ainda, outras questões em para a reflexão: essa ideia de “corrigir” um erro, ou seja o erro de ter levado uma espécie a extinção, além de efeitos biológicos, pode levar a uma forte impressão na nossa espécie de que a conservação das especiais vivas não vale a pena pois facilmente é possível reviver uma espécie extinta. Assim, aqueles que entre nós acham que a natureza pode – e deve – ser controlada podem prevalecer e as consequências podem ser imprevisíveis. Uma discussão interessante sobre o assunto pode ser encontrada no artigo de uma coluna da revista Nature, de maio de 2014 (http://www.nature.com/news/is-it-right-to-reverse-extinction-1.15212?WT.ec_id=NATURE-20140515).

O que já é problemático para as espécies de outros animais extintos, pode ser ainda mais complexo quando se trata de uma espécie de hominídeo. Nessa linha, vale a pena examinar a ideia de clonar um neandertal. Os neandertais eram uma subespécie do Homo sapiens e viveram entre 350 e 29 mil anos atrás, na Europa. Há muitas hipóteses para explicar sua extinção e muita controvérsia sobre se eles teriam convivido com a nossa espécie nesses locais e como teria sido tal convivência.

Há hoje, em curso, muitos projetos de clonagem dos neandertais. As limitações tecnológicas estão sendo sistematicamente superadas e aproxima-se o momento onde estaremos aptos a fazer reviver um neandertal. George Church, pesquisador da Universidade de Harvard, no Estados Unidos, declarou há um par de anos que estava pronto para tentar a clonagem de um neandertal e só precisava de uma mulher que concordasse em gestar esse bebê. Claro que as questões que se colocam para os mamutes são amplificadas quando pensamos em seres humanos, como os neandertais. Quem será esse bebê neandertal? Será um experimento científico? Será tratado como seres humanos diferentes dos europeus, vindos de outros continentes, como a África e a Oceania, foram tratados nos séculos passados: atrações em zoológicos humanos?

Numa reportagem de janeiro de 2013, do jornal inglês The Telegraph (http://www.telegraph.co.uk/news/science/9814620/I-can-create-Neanderthal-baby-I-just-need-willing-woman.html), George Church diz: “Nós podemos clonar todos os tipos de mamíferos, então é bem possível que possamos clonar um humano. Por que não seríamos capazes de fazê-lo?” Mas, chama atenção o que ele agrega a essa afirmação: “Neandertais podem pensar diferente do que nós pensamos. Sabemos que eles tem um crânio maior. Eles pode até ser mais inteligentes que nós. Numa situação de epidemia ou de termos que sair desse planeta ou algo assim, é concebível imaginar que sua forma de pensar seja benéfica. Eles podem talvez até mesmo criar uma nova cultura neo-neandertal e se tornar uma força política. O objetivo maior é aumentar a diversidade. Uma coisa que é negativa para a sociedade é pouca diversidade.”

Confesso que achei essas declarações chocantes, pois não dialogam, nem de longe, com a forma que a humanidade trata a diversidade. Formas diferentes de pensar? Por que não consultar os Ianomami? Ou os Krenak? Ou os Nuer, do Sudão? Ou os nativos do deserto de Gobi, na Mongólia? Ou os Aranda da Austrália? Ou os Inuítes do Canadá? Ou os Yamana, da Terra do Fogo?

Não há nenhum interesse na diversidade de pensamento, nem em formas diferentes de fazer as coisas. Se houvesse, teríamos aprendido muito com esses povos ao invés de destruí-los, escravizá-los e humilhá-los. Não deixa, porém, de ser interessante trazer esse tipo de argumento para o debate. Se é “negativo para a sociedade a pouca diversidade”, tratemos de ouvir o que a diversidade tem a nos dizer, inclusive, e principalmente, sobre a natureza.

É também instigante pensar que para Church e talvez para outros cientistas envolvidos na clonagem do neandertal, o resultado de seu projeto, o neandertal em si, seria diferente essencialmente de outros seres humanos, que aqui já habitam e que pensam de forma diversa. Tanto que Church aventa a possibilidade de grandes contribuições que os neandertais poderiam dar, enquanto dificilmente a ciência aposta em encontrar soluções para suas questões na diversidade de pensamento presente nas distintas culturas humanas.

Tal diferença viria de onde? Uma pista, talvez, seja a origem dos neo-neandertais. Povos da floresta, aborígenes, índios, esquimós, entre vários outros grupos humanos nascem, sem nenhuma tecnologia especial. Os neandertais seriam resultado de uma experiência de tecnologia de ponta. É um outro mito de origem, que pelo visto pode fazer muita diferença.

Ah, tem outra coisa: os neandertais são europeus! Acho que isso explica tudo…

6 Comentários

  1. Aldo Paviani disse:

    Legal, Núrit.
    Penso que muitos andam com a mesma ideia… Pergunta-se, p. ex. de onde, de que planeta, vem o presidente americano para não aderir ao combate à poluição. Cada país tem o temeroso que merece.
    Cumprimentos pelos plots.
    Abraço

  2. Patricia disse:

    Texto fantástico!! Incrivel pensar que para se ter formas diferentes de pensar, os Europeus precisam desextinguir o homem de Neandertal. Chocante mesmo, Nurit!!

  3. Lilia Lustosa disse:

    Nurit, sua ex-humana, excelente texto! Excelente reflexão! Ah, o europeu e seu cacoete de colonizador… Saudades de você e de nossos papos filosóficos (ou nem tanto) na piscina do Acquatreino!

  4. Vander Gontijo disse:

    Oi Nurit, Deixe alguém emprestar a barriga. Já que não somos mais humanos (agora somos libélulas, lobisomens, liberais) quem sabe é chegada a hora de conhecer e conviver com o que havia de humano na nossa origem. Recebi, recentemente, um relatório dizendo: “You have more Neanderthal variants than 66% of 23andMe customers”. (E eles têm uma baita amostra). Portanto, carrego um pouco da representatividade neandertal e garanto que essa parte do meu ser não é responsável pelos problemas que já criei nesta vida. kkkk. Sua reflexão é excelente. Grande abraço.

    • Nurit Bensusan disse:

      Vander, não sei como vc pode ter tanta certeza… talvez vc possa colocar toda culpa de tudo e qualquer coisa nos seus genes neandertais… Abraços!

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